OS SÍMBOLOS DOS QUATRO EVANGELHOS
Segundo a tradição cristã, os quatro animais vistos por Ezequiel no meio de sua “carruagem” são símbolos proféticos dos quatro evangelistas:
o HOMEM representa SÃO MATEUS;
o LEÃO, SÃO MARCOS;
o TOURO, SÃO LUCAS;
e a ÁGUIA, SÃO JOÃO.

A tradição cristã, segundo a qual os quatro animais vistos por Ezequiel no meio da “carruagem” são símbolos proféticos dos quatro evangelistas, aparece pela primeira vez em obras de Santo Irineu de Lyon, escritas por volta do final do séc. II.
No tratado Contra Heresias (III 11, 8), seu interesse é demonstrar a existência de apenas quatro Evangelhos autênticos sobre a vida de Cristo, em contraposição aos muitos evangelhos gnósticos que ele busca refutar.
Quer provar ainda que os quatro foram profetizados no Antigo Testamento.
No Salmo 79, 2: “Tu que estás sentado sobre os querubins, manifesta-te”.
O querubim de quatro faces visto por Ezequiel no capítulo 10: “O Verbo que é o artífice de todas as coisas, o qual está sentado acima dos querubins e tudo contém, tendo-se revelado aos homens, deu-nos o Evangelho quadriforme, unido [porém] por um único espírito” (MG 7, 885B).
Em seguida, afirma que o LEÃO, símbolo de São João, representa o poder do Verbo na criação e no governo do mundo;
o TOURO, animal do sacrifício sacerdotal, simboliza Lucas, cujo evangelho começa com um sacerdote, Zacarias;
o HOMEM simboliza São Mateus, que começa por uma genealogia humana;
e a AGUIA simboliza São Marcos, que começa “com espírito profético vindo do alto aos homens […], dizendo: ‘Início do Evangelho de Jesus Cristo. Conforme está escrito no profeta Isaías’ […], por esta razão fez um anúncio tão compendioso como apressado, pois é profético este caráter” (MG 7, 888A).
Santo Agostinho acolhe a explicação simbólica dos animais, sem citar nomes.
Como os três primeiros animais andam na terra [i.e., não voam], estes três evangelistas se ocuparam sobretudo das coisas que Cristo fez na carne […]. Ao passo que João sobrevoa como águia as nuvens da debilidade humana, e contempla com os olhos mais agudos e firmes do coração a luz da verdade imutável [i.e., a divindade de Cristo] (ML 34, 1047).
Esse trecho se refere à crença, comum no mundo antigo, de que as águias seriam capazes de olhar diretamente para o Sol.
É a São Jerônimo que devemos a consolidação da tradição, tal como a preservamos até hoje, de que o homem, o leão, o touro e a águia simbolizam respectivamente Mateus, Marcos, Lucas e João. No prólogo de seu comentário ao Evangelho de São Mateus, ele escreve:
Que estes quatro Evangelhos tenham sido pronunciados desde muito antes, também o livro de Ezequiel o prova, no qual a primeira visão é assim descrita: “No meio, aparecia uma semelhança de quatro seres vivos […]. O seu semblante era assim: rosto de homem pela frente, e face de leão à direita, em todos os quatro, face de touro à esquerda, em todos os quatro, e face de águia nos mesmos quatro” (Ez 1, 5.10). O primeiro rosto, de homem, significa Mateus, que começa escrevendo, ao parecer, sobre um [simples] homem: ‘Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão’ (Mt 1, 1); a segunda [face], Marcos, em quem se ouve a voz de um leão a rugir no ermo: “Voz do que clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’” (Mc 1, 3); a terceira, de touro, prefigura o evangelista Lucas, que começa escrevendo sobre o sacerdote Zacarias; a quarta, o evangelista João, que, tendo tomado penas de águia, e lançando-se às alturas, fala do Verbo de Deus (ML 26, 19BC).
Essa ordem é repetida à risca, e pelas mesmas razões, por São Gregório Magno no início do quarto sermão sobre Ezequiel (cf. Hom. IV 1, in Ez 1, 10: ML 76, 815A). Jerônimo reafirma o significado profético da visão referindo a presença de quatro animais no capítulo 4 do Apocalipse: “Estão cheios de olhos, e não cessam, dia e noite, de dizer: ‘Santo, santo, santo é o Senhor Deus onipotente, o que era, que é e que vem’” (Ap 4, 8).
“A Visão de Ezequiel”, por Rafael.
Os animais na carruagem em Ez 1, assim como o querubim em Ez 10, são descritos “cheios de olhos”. São Jerônimo repete o que foi dito por Irineu: “Por tudo isso se vê claramente que se hão de acolher somente os quatro Evangelhos, enquanto os cantos fúnebres dos apócrifos hão de ser cantados mais pelos mortos, [isto é], pelos hereges, do que pelos vivos, [isto é, pelos homens] da Igreja” (In Matth., prol.: ML 26, 20A).