O inferno existe?
Esta pergunta, aparentemente trivial para um católico praticante, é debatida por teólogos e pregadores que, ora tratam o tema com desdém, ora o consideram inoportuno para o homem moderno. Vamos ver o que dizem as Escrituras e a Tradição?
1- A partir das Sagradas Escrituras e da Tradição, bem como de inúmeras declarações do Magistério da Igreja, não resta dúvida de que o inferno existe – e não acreditar neste dado revelado é afastar-se da fé católica;
2- Embora exista, o inferno não é criação de Deus, mas uma invenção diabólica, realidade na qual os seres humanos podem adentrar, com a sua liberdade.
Na encíclica Spe Salvi, o Papa Bento XVI faz alusão a recentes episódios da história do mundo em que ficou evidente como o uso abusivo da liberdade pode levar, já neste mundo, a uma opção irremediável pelo mal:
"Pode haver pessoas que destruíram totalmente em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor; pessoas nas quais tudo se tornou mentira; pessoas que viveram para o ódio e espezinharam o amor em si mesmas. A destruição do bem seria irrevogável: e é isto que se indica com a palavra inferno."
O inferno é uma constatação histórica, cuja possibilidade se torna bem concreta, se o ser humano olhar com sinceridade para o próprio coração. Fatalmente, a criatura pode sim afastar-se de seu Criador. Ou seja, é opção do ser humano, afastar-se de Deus e do bem, escolher o ódio e o que é mal.
Na verdade, são justamente as pessoas que deixam de crer no inferno as que terminam cometendo, por causa disso, as maiores atrocidades. Como não há castigo para si, como estão elas "para além do bem e do mal", tudo parece ser-lhes permitido.
Mas, na expressão de São Bernardo de Claraval, "Deus é impassível, mas não incompassível": embora não possa padecer, Deus Se compadece dos fracos e oprimidos neste mundo. A Sua graça, adverte o Papa Bento XVI, "não exclui a justiça", nem "muda a injustiça em direito":
"Não é uma esponja que apaga tudo, de modo que tudo quanto se fez na terra termine por ter o mesmo valor. Contra um céu e uma graça deste tipo protestou com razão, por exemplo, Dostoiévski no seu romance 'Os irmãos Karamázov'. No fim, no banquete eterno, não se sentarão à mesa indistintamente os malvados junto com as vítimas, como se nada tivesse acontecido."
Mas, seria conveniente falar sobre o inferno ao homem de hoje? Não seria melhor deixar de lado essa doutrina?
A pedagogia divina, expressa na vida dos santos e místicos da Igreja, nos mostra que não. Santa Teresa de Ávila relata, em sua autobiografia, como a visão que teve do inferno foi "uma das maiores graças" que o Senhor lhe concedeu. Tal fato fê-la inflamar-se de tal amor por Nosso Senhor que – diz ela em seu Caminho de Perfeição – estaria disposta a dar mil vidas pela salvação de uma só das almas que se precipitavam no abismo eterno.
Em 1917, em Portugal, Nossa Senhora também não hesitou em mostrar o inferno aos pastorinhos de Fátima. "Algumas pessoas, mesmo piedosas – diz a Irmã Lúcia em suas memórias –, não querem falar às crianças do inferno, para não as assustar; mas Deus não hesitou em mostrá-lo a três crianças, e uma de 6 anos apenas, a qual Ele sabia que se havia de horrorizar". Mas, Deus permitiu que aquelas crianças tivessem esta terrível visão para estimular-lher o temor: não o temor servil, de um escravo, mas o temor filial, de filhos. De fato, depois de contemplarem o inferno, Francisco, Jacinta e Lúcia foram incendiados por um grande amor a Deus e começaram a fazer inúmeras penitências e orações para salvar as almas da condenação eterna.
Satanás e os anjos rebeldes já estão no inferno; porque Cristo, ao encerrar o seu "sermão escatológico", não deixa dúvidas quando diz que os maus "irão para o castigo eterno" (Mt 25, 46).
Permanecer na fé da Igreja, portanto, é o caminho seguro. Os pregadores da Palavra e catequistas devem, sim, falar do inferno, não para aterrorizar as pessoas, mas para fazê-las crescer no amor. A caridade não pode ser levada a sério se não se tem uma verdadeira repulsa pelo mal e pelo eterno afastamento do Sumo Bem, que é Deus.
(Padre Paulo Ricardo)